4.26.2011

A opinião de um leitor do blogue:

Junto publicamos a opinião de um leitor do blogue, sobre o Concerto que decorreu na Igreja Matriza de Santiago do Cacém, integrado no Festival de Música "Terras sem Sombra".
Agradecemos a sua colaboração e conforme sua gentil sugestão, o espaço fica disponível para outras opiniões do restantos concertos.

A música em tempos de cólera

Não sou muito dado a acreditar em milagres, mas que os há, há. O Alentejo está a oferecer um ao país: a realização do Festival Terras sem Sombra de Música Sacra. Em 2010, quando os cortes orçamentais anunciados pelo Ministério da Cultura deitaram abaixo vários projectos apoiados pela Direcção-Geral das Artes, este festival encontrou-se em risco de vida, já que o seu primeiro director artístico desertou, temeroso ante o fim dos subsídios estatais. A sós perante o abismo, o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja passou de co-parceiro a responsável único pela iniciativa e olhou para a frente. Dos fracos não reza a história. Certas crises, quando bem entendidas, podem transformar-se em oportunidades.
O passo seguinte foi a contratação de Paolo Pinamonti, ex-director do Teatro Nacional de São Carlos e professor na Universidade de Veneza, para assumir as funções de director artístico durante três anos. Fazendo parte da elite dos directores musicais, Pinamonti move-se muito à vontade no meio artístico internacional e veio ajudar o Alentejo a colocar-se na rota dos festivais de dimensão europeia. A sua aproximação ao Alentejo representou uma cartada de mestre por parte de José António Falcão, que superintende ao património da Diocese de Beja. De facto, há muito que se vinha desenhando a internacionalização do Festival, mas faltava-lhe um golpe de asa.
A mudança da direcção artística, imposta afinal por circunstâncias alheias ao Terras sem Sombra, permitiu o pequeno/grande milagre de assegurar a continuidade do projecto, dotando-o de uma envergadura única entre nós. A visão estratégica, a liderança cosmopolita e a capacidade organizativa que são unanimemente reconhecidas a Falcão, um alentejano dos quatro costados, surgem agora unidas ao génio artístico, à finura psicológica e ao talento para descobrir talentos de Pinamonti, o mago da ópera, cuja saída do Teatro de São Carlos ainda hoje desperta lágrimas nos olhos de muitos admiradores do bel canto.
O arranque auspicioso do Festival Terras sem Sombra, a 2 de Abril, na igreja matriz de Santiago do Cacém, com María Bayo e a Orquestra Barroca Divino Sospiro, dirigida por Massimo Mazzeo, a interpretarem obras de Antonio Vivaldi, Alexandre Delgado e Giovanni Ferrandini, é um aviso à navegação. Para os mais distraídos não deixará de parecer surpreendente que o esforço para unir duas margens que parecem por vezes irredutivelmente separadas entre nós – a arte e a espiritualidade – brote de uma diocese “de província”. Porém, em abono da verdade, deve lembrar-se que a região de Beja tem vindo a fazer, desde há décadas, um trabalho muito coerente na valorização do seu património religioso.
Após as encomendas da Diocese de Beja a Joana Villaverde, Joana Vasconcelos, Luís Afonso, João Madureira e Filipe Faísca é difícil imaginar um sítio mais adequado para o encontro da arte do passado e da criação contemporânea. O Festival está a tornar-se a cereja no topo de um bolo maravilhoso, tendo por fundo a magnífica paisagem alentejana, com as suas planícies imensas, as suas igrejas brancas, o seu povo sereno e acolhedor, a sua gastronomia saborosíssima, os seus vinhos únicos. Mais: claramente adoptado pela sociedade civil, o Terras sem Sombra concitou o brio dos alentejanos e não depende, a não ser em menos de metade dos seus meios, do erário público. É um bom sinal de mudança.
Num momento em que Portugal se vê gravemente ferido, como colectividade, no seu orgulho mais profundo, iniciativas destas lavam-nos o espírito e fazem bem à alma e à auto-estima. Bem pode o futuro governo substituir o infausto Ministério da Cultura por uma modesta Secretaria de Estado que nem por isso o Baixo Alentejo ficará mudo. Já deu provas de que se sabe organizar e transformar as coisas de que gosta, como o seu radiante Festival, num dos rostos da região. Ou não fosse a música, com o famoso cante na dianteira, uma marca profunda de identidade.

Rui Oliveira Guedes

6 comentários:

Anónimo disse...

Já agora um perguntinha:
A Câmara de Santiago também deu uma ajudazinha ao concerto?

Anónimo disse...

O Dr Falcão dava um bom presidente para a câmara de Santiago. Santiago tem que se livrar dos comunistas na câmara o mais rápido possível antes que o concelho fique feito em cacos.

Anónimo disse...

Gostei muito de assistir a este concerto

Anónimo disse...

A Câmara está a fazer com a sede do Concelho o que fez com algumas freguesias, como por exemplo Ermidas Sado...ABANDONA...!
A Festa já só quase comunista do 25Abril foi mais uma vez em Vila Nova de Santo André, só por uma questão meramente eleitoralista...
Gastaram entre 30/40.000€, do nosso dinheiro, num espectáculo de DUAS HORAS, com um cantor Angolano...Estou mesmo a ver, numa festa Nacional de Angola ir lá cantar o Vitorino...
Mais uma vergonha que a população do Concelho, com medo e por indiferença aceita...!

Joaquina Matos disse...

Esta iniciativa do Departamento de Arte Sacra de Beja em colaboração com a Câmara de Santiago, a APS, o Turismo e outras entidades é uma belíssima iniciativa, que dá nova vida aos nossos monumentos. Apoio e participo nos concertos.

Anónimo disse...

Caro Ermidense:
Homem tenha calma, o seu dia vai chegar. É só votar no partido deles(PC).Até fica mais novo.
Não custa nada.