4.26.2011

Projecto Rota Vicentina liga Santiago do Cacém a Sagres em dois caminhos pedestres

O projecto Rota Vicentina, que consiste numa rota pedestre de 300 quilómetros ao longo da Costa Alentejana e Vicentina, baseado numa forte parceria público-privada da região, vai ser apresentado oficialmente esta sexta feira, 23. Trata-se de um projecto promovido pela Associação Casas Brancas, em parceria com a Associação Almargem, que consiste numa grande rota de percursos pedestres, a implementar entre Santiago do Cacém e Sagres. São cerca de 300 quilómetros, repartidos por dois trajectos que se complementam: o traçado histórico, que recria o antigo caminho e que atravessa as principais localidades, e o caminho dos pescadores, junto ao litoral e percorrendo todo o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. “Numa aposta unânime entre agentes públicos e privados da Costa Alentejana e Vicentina, o projecto pretende afirmar esta região como um destino europeu de turismo de natureza, oferecendo uma infra-estrutura transversal que promete viabilizar o usufruto de um dos mais belos trechos pedestres do país e da Europa”. A homologação internacional permitirá integrar a GR11, que liga Sagres a S. Petersburgo, percorrendo toda a Europa e integrando os Caminhos de Santiago. Para além da sinalização do percurso, o projecto prevê uma forte campanha de sensibilização das populações locais para a importância de um projecto estruturante como este, para um desenvolvimento mais sustentável, e também para incentivar a criação de projectos complementares e de suporte. A Rota Vicentina deverá ser inaugurada no final de 2011, seguindo-se uma estratégia de promoção internacional dirigida a operadores e imprensa especializada em turismo de natureza. Para além da associação de turismo Casas Brancas, que coordena o projecto, a parceria conta também com a Associação Almargem, que assumirá a implementação do projecto a sul de Odeceixe, e também os municípios de Santiago do Cacém, Sines, Odemira, Aljezur e Vila do Bispo, o ICNB, o Polis do Alentejo Litoral, as Entidades Regionais de Turismo do Alentejo e do Alentejo Litoral, entre outras entidades. Trata-se de uma iniciativa QREN, apoiada no Alentejo no âmbito do INALENTEJO, cujo investimento ascendeu a cerca de 400 mil euros, com co-financiamento FEDER de cerca de 244 mil euros, e no Algarve no âmbito do PO ALGARVE 21, com um investimento de cerca de 140 mil euros e co-financiamento FEDER de cerca de 90 mil euros.

A opinião de um leitor do blogue:

Junto publicamos a opinião de um leitor do blogue, sobre o Concerto que decorreu na Igreja Matriza de Santiago do Cacém, integrado no Festival de Música "Terras sem Sombra".
Agradecemos a sua colaboração e conforme sua gentil sugestão, o espaço fica disponível para outras opiniões do restantos concertos.

A música em tempos de cólera

Não sou muito dado a acreditar em milagres, mas que os há, há. O Alentejo está a oferecer um ao país: a realização do Festival Terras sem Sombra de Música Sacra. Em 2010, quando os cortes orçamentais anunciados pelo Ministério da Cultura deitaram abaixo vários projectos apoiados pela Direcção-Geral das Artes, este festival encontrou-se em risco de vida, já que o seu primeiro director artístico desertou, temeroso ante o fim dos subsídios estatais. A sós perante o abismo, o Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja passou de co-parceiro a responsável único pela iniciativa e olhou para a frente. Dos fracos não reza a história. Certas crises, quando bem entendidas, podem transformar-se em oportunidades.
O passo seguinte foi a contratação de Paolo Pinamonti, ex-director do Teatro Nacional de São Carlos e professor na Universidade de Veneza, para assumir as funções de director artístico durante três anos. Fazendo parte da elite dos directores musicais, Pinamonti move-se muito à vontade no meio artístico internacional e veio ajudar o Alentejo a colocar-se na rota dos festivais de dimensão europeia. A sua aproximação ao Alentejo representou uma cartada de mestre por parte de José António Falcão, que superintende ao património da Diocese de Beja. De facto, há muito que se vinha desenhando a internacionalização do Festival, mas faltava-lhe um golpe de asa.
A mudança da direcção artística, imposta afinal por circunstâncias alheias ao Terras sem Sombra, permitiu o pequeno/grande milagre de assegurar a continuidade do projecto, dotando-o de uma envergadura única entre nós. A visão estratégica, a liderança cosmopolita e a capacidade organizativa que são unanimemente reconhecidas a Falcão, um alentejano dos quatro costados, surgem agora unidas ao génio artístico, à finura psicológica e ao talento para descobrir talentos de Pinamonti, o mago da ópera, cuja saída do Teatro de São Carlos ainda hoje desperta lágrimas nos olhos de muitos admiradores do bel canto.
O arranque auspicioso do Festival Terras sem Sombra, a 2 de Abril, na igreja matriz de Santiago do Cacém, com María Bayo e a Orquestra Barroca Divino Sospiro, dirigida por Massimo Mazzeo, a interpretarem obras de Antonio Vivaldi, Alexandre Delgado e Giovanni Ferrandini, é um aviso à navegação. Para os mais distraídos não deixará de parecer surpreendente que o esforço para unir duas margens que parecem por vezes irredutivelmente separadas entre nós – a arte e a espiritualidade – brote de uma diocese “de província”. Porém, em abono da verdade, deve lembrar-se que a região de Beja tem vindo a fazer, desde há décadas, um trabalho muito coerente na valorização do seu património religioso.
Após as encomendas da Diocese de Beja a Joana Villaverde, Joana Vasconcelos, Luís Afonso, João Madureira e Filipe Faísca é difícil imaginar um sítio mais adequado para o encontro da arte do passado e da criação contemporânea. O Festival está a tornar-se a cereja no topo de um bolo maravilhoso, tendo por fundo a magnífica paisagem alentejana, com as suas planícies imensas, as suas igrejas brancas, o seu povo sereno e acolhedor, a sua gastronomia saborosíssima, os seus vinhos únicos. Mais: claramente adoptado pela sociedade civil, o Terras sem Sombra concitou o brio dos alentejanos e não depende, a não ser em menos de metade dos seus meios, do erário público. É um bom sinal de mudança.
Num momento em que Portugal se vê gravemente ferido, como colectividade, no seu orgulho mais profundo, iniciativas destas lavam-nos o espírito e fazem bem à alma e à auto-estima. Bem pode o futuro governo substituir o infausto Ministério da Cultura por uma modesta Secretaria de Estado que nem por isso o Baixo Alentejo ficará mudo. Já deu provas de que se sabe organizar e transformar as coisas de que gosta, como o seu radiante Festival, num dos rostos da região. Ou não fosse a música, com o famoso cante na dianteira, uma marca profunda de identidade.

Rui Oliveira Guedes