11.04.2009

Silêncio, um projecto inovador no campo da música sacra

O património cultural debate-se hoje, num mundo globalizado e em rápida mutação, com grandes problemas. No que toca a Portugal, esta situação afecta, com particular intensidade, o património religioso, que corresponde a uma parcela esmagadora do nosso universo patrimonial – quase três quartos. A Igreja vê-se hoje a braços com enormes dificuldades para fazer frente a uma situação que, do ponto de vista financeiro e técnico, ultrapassa as suas possibilidades. O Estado, por seu turno, dispõe cada vez de menos recursos para conservar e manter abertos os monumentos, alijando responsabilidades nos municípios, também eles sobrecarregados de encargos. Face ao descalabro que se adivinha para muitos monumentos e obras de arte sacra, a única esperança consiste na mobilização da sociedade civil. Hoje, mais do que nunca, o futuro do património depende da mobilização das comunidades locais. Algo que não se faz com uma varinha mágica.
Foram estas as preocupações que estiveram na origem do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja (DPHA). Fundado em 1984 pelo então bispo de Beja, D. Manuel Franco Falcão, este serviço, constituído essencialmente por voluntários, inclui um “núcleo duro”, de marcado carácter técnico-científico, com 12 membros, e conta com cerca de duas centenas de colaboradores dispersos pelo vasto território do Baixo Alentejo – Beja é a segunda maior diocese do país em área, mas também a mais despovoada. A luta pela salvaguarda do património faz-se aqui em condições desiguais, uma vez que a desertificação crescente do interior abre a porta a situações de abandono, furto e vandalismo, especialmente em zonas rurais onde já há poucos habitantes. Mesmo assim, tem sido possível recuperar e dar nova vida a muitos monumentos e obras de arte em risco.
Um dos aliados do esforço que está a ser feito para defender as igrejas históricas é, por estranho que isso possa parecer, a música. De facto, o Festival Terras sem Sombra de Música Sacra, uma iniciativa realizada em parceria com a Arte das Musas, a Direcção-Geral das Artes do Ministério da Cultura e os municípios, já vai na sua sexta edição e tem-se imposto por uma programação rigorosa e qualificada. O Festival, hoje uma referência no panorama cultural do país (e da vizinha Andaluzia), visita regularmente os principais monumentos religiosos e, além de assumir uma componente pedagógica de base – cada edição constitui um novo capítulo de uma informal “História da Música” –, dá a conhecer, através de palestras, visitas guiadas e exposições, a arte sacra dos concelhos percorridos. Tendo em conta a grande paixão dos alentejanos pela música, isto significou uma pequena revolução para o património mais esquecido ou negligenciado.
“A arte pode ajudar a devolver aos monumentos a voz de que eles precisam”, salienta José António Falcão, director do Departamento. E acrescenta: “Eis uma reconciliação indispensável, mas que exige vistas largas e um trabalho de fundo.” Num momento em que não se revela fácil o diálogo entre a Igreja e os criadores artísticos, o Departamento acredita na importância de estender pontes e criar espaços de reflexão, o que corresponde, de acordo com os seus responsáveis, a uma tradição enraizada no Alentejo.
Para assinalar o quarto de século de actividade, algo pouco vulgar num meio em que florescem muitas iniciativas destinadas a uma vida breve, o DPHA levou a cabo o projecto Silêncio, que parte da música de matriz cristã para uma aproximação ecuménica, destinada a reunir católicos, ortodoxos e protestantes.
Interpretado pelo agrupamento Sete Lágrimas, a iniciativa assenta na encomenda de seis obras a três compositores contemporâneos: Ivan Moody (n. 1964), Andrew Smith (n. 1970) e João Madureira (n. 1971).
O desafio lançado a estes mestres residiu na composição de duas obras tendo por base a proveniência cultural de cada um deles: uma peça de maior fôlego e outra de carácter mais popular para instrumentos “antigos”. As obras, de carácter sacro e em seis idiomas diferentes, do latim ao russo, assentam em textos do Antigo e do Novo Testamento (Génesis, Lamentações e Paixão) e, complementarmente, de origem popular das distintas proveniências dos compositores. Trata-se de um olhar contemporâneo, em clave ecuménica, sobre as tradições ortodoxa, protestante e católica.
Sete Lágrimas, um consort especializado em música antiga e contemporânea, é, desde 2006, o grupo residente do Festival Terras sem Sombra de Música Sacra do Baixo Alentejo, tendo sido considerado um dos mais relevantes agrupamentos da actualidade nacional pela crítica. Surgido em 2001, conta já com uma discografia assinalável: “Lachrimæ #1” (2007), “Kleine Musik” (2008) e “Diaspora.pt” (2008). Para a interpretação das obras de Moody, Smith e Madureira, associou ao seu dispositivo a soprano húngara Zsuzsi Toth, uma voz reconhecida, pela surpreendente beleza e pela performance clara, mas cheia de cor, no meio da música contemporânea europeia.
Silêncio terá a ante-estreia em Beja, na igreja de Santa Maria da Feira, a 14 de Novembro, pelas 21.30 horas. A estreia realizar-se-á no Centro Cultural de Belém, a 15 de Novembro, pelas 18.00 horas. Este concerto será precedido (17.00 horas) por uma conversa, moderada pelo jornalista António Marujo (do Público), com Ivan Moody, Andrew Smith, João Madureira e o P.e José Tolentino Mendonça. Nas mesmas ocasiões proceder-se-á ao lançamento do CD do projecto, gravado pela Sony na Áustria e editado sob a chancela da MU Records. A iniciativa conta com o apoio da Direcção-Geral das Artes/Ministério da Cultura, do Turismo do Alentejo e da Câmara Municipal de Beja.

14 comentários:

Peter disse...

Passada uma semana depois da suposta tomada de posse do Executivo e da Assembleia da Junta de freguesia da Comporta(está tudo por defenir por responsabilidade da SrªMaria José e da CDU).
Ouvem-se rumones que a Srª Maria José anda a dizer de rua em rua, de café em café, que foi a oposição quem inviabilizou a tomada de posse, que não consegue trabalhar com outros que não sejam os seus amigos...Então pergunto à SrªMaria José, se a Junta não é algo demasiado sério para trabalhar-mos só por e com amizades? Ou a senhora acha que as carências da Comporta se resolvem com caprichos, viagens para idosos, favorecimentos laborais, vinganças pelo que aconteceu no passado?
A Senhora devia de assumir que falhou naquela noite, pois não cumprio o que a lei diz, e não ande a empurrar para cima dos outros a sua falta de sabedoria ou a sua teimosia.
Eu não admito como comportense, que algumas pessoas do seu partido pensem que a intervenção de cidadania é só propriedade de vossa e que são os únicos democratas a habitarem esta terra!
Deixem a arrogância e o veneno em casa e sejam responsáveis.
Não usem a mentira como arma política, usem argumentos válidos!
Não usem a vitimização, pois são os primeiros e únicos responsáveis desta situação!
A população da Comporta andou bastante tempo de costas voltadas para o Poder Local, agora tudo está a mudar!

Teresa Silva Ramalho disse...

Parabens à diocese de beja por esta actividade e ao dr falcão, que é um santiaguense que tem feito muito, tal como outros mais, mas nem sempre devidamente acarinhado plo concelho

Anónimo disse...

Continuo sem perceber porque razão são validados comentários que nada têm a ver com os artigos, e como se permite insinuações destemperadas e perfeitamente gratuitas sobre pessoas feitas de forma anónima e que aqui não fazem nenhum sentido.
Por fim, permitam-me que felicite o senhor Bispo Emérito D. Manuel Falcão, por tudo o que fez e tem feito em prol da nossa Diocese, assim como os 25 anos de Departamento do Património Diocesano.

Anónimo disse...

Em Sines fez-e o Tesouro de Nª Senhora das Salas, mas muito mais se podia ter feito.
Em Santiago, o Tesouro da Colegiada e arranjos na Igreja Matriz. Para além de algumas exposições importantes. Mas não se vê a câmara interessada em avançar com o Museu de Arte Sacra, nem em fazer nada nas ruinas do Loreto, nem em fazer algo de jeito nas ruínas da igreja do Livramento em S. Francisco e em muitas outras por esse concelho que bem precisadas estão. É engraçado, que na Diocese, o dpahadb tem tido muito mais apoios ou colaborações em restaurar igrejas mesmo em concelhos comunistas, e desenvolvido muitos projectos, do que no litoral alentejano, com especial incidência em Santiago terra do Dr. José António Falcão, que muito mais podia beneficiar das suas extraordinarias capacidades. Por enquanto ainda estamos à espera das obras nos velhos paços do concelho da praça Conde do Bracial, prometidas pela câmara, para instalar o Centro de Estudos Jacobeus tão pomposamente alardoado, na sequencia da geminação com Santiago de Compostela. Mas isso como outras que mais, ficará para as calendas gregas ou para o ano de eleições, em 2013. Tá-se bem!

Anónimo disse...

Em Santiago, e um pouco pelo litoral alentejano, é preciso investir mais na recuperação do património cultural. As câmaras e o Estado, naturalmente. É pena o Loreto estar abandonado, assim como as ruinas do Livramento em S. Francisco, as ruínas Miróbriga estão desprezadas, na ilha do Pessegueiro as ruínas romanas estão a degradar-se, enfim há bastantes casos tristes que nada abonam para a região e é com pena que vejo certas situações que temos à vista.

Anónimo disse...

Neste blog diz-se e publica-se todo o tipo de absurdos e o anonimato é excelente para o boato, intrigas e mentiras. Não compreendo as opções do dono do blog ao validar certas coisas a menos que tenha todo o interesse no fomento do boato, intrigas e mentiras. Qualquer pessoa razoavelmente informada sabe que o José António Falcão não é maçon e também não esconde de ninguém que é muito amigo do Luís do Ó e que essa amizade vem, pelo menos, dos tempos de várias iniciativas de grande dimensão que foram realizadas num dos sítios mencionados nestes comentários. Nem mais nem menos do que nas Ruínas do Loreto ao contrário do que é aqui insinuado. Acompanhei várias dessas iniciativas nos anos 90 e se hoje ainda existe alguma coisa no Loreto é devido a pessoas como eles. Em vez de comentários movidos por questões políticas talvez fosse bom aproveitar as pessoas de valor que gostam do património da região, como eles, o Luís Ramos, José Matias ou João Madeira.

Anónimo disse...

Não me revejo nesta politica do bloguer de validar comentários com insinuações, ofensas e calúnias contra pessoas, independentemente de quem seja. Sou favorável à troca de ideias, ao sentido critico, ao debate, mas totalmente contra a insinuação e a calúnia seja contra socialistas, comunistas, sociais-democratas, católicos, evangélicos, etc, etc.

Anónimo disse...

Fui eu o autor do comentário anterior. Faltou mencionar o Francisco Lobo Vasconcellos que tem trabalho muito válido e ama o seu concelho. Peço desculpa pelo lapso.

Anónimo disse...

quem é esse josé falcão?

Alentejo_SW disse...

Recebemos uma mensagem a criticar-nos por termos publicado um post a perguntar que era o "José Falcão".
Devemos recordar quem nem toda a gente conhece o José António Falcão e o seu meritório trabalho na Diocese de Beja.
Esta publicação foi para "provocar" e termos aqui uma biografia de JAF.
Existe muita gente que gosta do Litoral Alentejano e não conhece o trabalho excelente de muitos dos seus naturais.
Se estão recordados, em 2008, lançamos aqui um desafio para se fazer a lista de personalidades ilustres da nossa zona
http://alentejo-litoral.blogspot.com/2008/08/personalidades-do-litoral-alentejano-ii.html
http://alentejo-litoral.blogspot.com/2008/07/personalidades-do-litoral-alentejano-um.html
Se calhar vamos voltar a esse tema, esperando que surja uma publicação com a biografia de alguns nomes que lá aparecem.
Voltaremos a este tema.
Obrigado

Anónimo disse...
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Alentejo_SW disse...

Em resposto ao anónimo das 12.05 voltamos a afirmar que este espaço não tem o cunho, nem a orientação nem a sombra de nenhum partido.
Que nem o Luis do Ó, ou Alexandre Rosa, ou o BE ou PS ou qualquer outro partido são colaboradores, autores ou mentores deste espaço.
Voltamos a afirmar que este espaço se pretende apartidário e se o distraído que fez este comentário se desse ao trabalho de ler alguns artigos anteriores verá que todos as forças politicas e "actores politicos" são criticados sem excepção.
Parece-nos a nós, sim, que este anónimo, é mais alguém que convive mal com a liberdade de opiniões, liberdade de escolha, e não aceita críticas ou chamadas de opinião a certas cores politicas.
Relembro que o Muro de Berlim caiu fez ontem 20 anos e, graças a Deus, mais um grande passo de liberdade, democracia e evolução foi dado nesse dia.
E para terminar, não deixa de ser patético ler que alguém "anónimo" queira saber quem são os autores deste blogue!
O anonimato é um direito que o postador das 12.05 bem conhece e usa!

Anónimo disse...

Todos os projectos inovadores na região são de divulgar e acarinhar, e também recohecer o mérito aos seus agentes. É o caso deste projecto da Diocese de Beja, que à base do voluntarismo e muita dedicação tem realizado actividades muito importantes no Baixo Alentejo e na nossa região. Peço desculpa mas não alinho na toada de comentários que tem sido feita nos comentaristas que me antecedem, nem vejo nisso qualquer interesse para este espaço. Se não temos opinião, é preferível não comentar, do que tecer considerações despropositadas sem relação alguma com os artigos, e muito menos usarmos este espaço para denegrir esta ou aquela personalidade da região. Pessoalmente, preferia que o bloguer vetásse esse tipo de comentários, porque só assim será possível dar alguma seriedade e credibilidade a este espaço.

ANE disse...

Este blog é o máximo. O anónimo das 12.05 insinua que são socialistas os anónimos que ofenderam o José António Falcão. Quem leia isto fica com uma bonita ideia da realidade das coisas. Para uma pessoa como o José António Falcão votar na CDU seria preciso que a CDU deixasse de ser comunista ou acham que este senhor culto e inteligente é comunista? Mais o vejo a votar no CDS/PP, PPD/PSD e PS do que a votar em coisas extremistas como CDU ou Bloco Esquerda. Depois este anónimo vem com uma obcessão antiga de querer saber quem é o patrão do blog e faz acusações graves e tontas. Sobra só que o anónimo seja consequente consigo próprio e diga quem afinal é, como se chama e quem o mandou vir estragar este blog.