10.22.2008

Gado, charruas e acácias estão a destruir necrópoles junto à ilha do Pessegueiro

Sobre uma noticia do "Público", e que transcrevemos, gostariamos de chamar a atenção para outros casos: Miróbriga, o encerramento da ruínas romanas de Tróia, o abandono da ilha do Pessegueiro, a indefinição do futuro uso do forte de dentro de Pessegueiro, o assalto ao património do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina, etc.

"Arqueólogo diz sentir "uma profunda vergonha" perante o que considera ser "um crime lesa-património". Instituto de Conservação da Natureza garante que desconhecia situação

Os vestígios de duas necrópoles pré-históricas defronte da ilha do Pessegueiro desapareceram de vez e outras seis jazidas situadas no mesmo terreno de Porto Covo, no concelho de Sines, arriscam-se a ir pelo mesmo caminho, graças à acção do gado, das charruas e das acácias, que são uma planta infestante.O alerta foi dado este fim-de-semana, num encontro sobre a história do litoral alentejano, pelo arqueólogo Carlos Tavares da Silva, que nos anos 80 e 90 participou nas escavações que ali decorreram. O especialista diz sentir "uma profunda vergonha" perante o que considera ser "um crime lesa-património"."Levava muitas vezes os meus alunos do mestrado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa a visitar o local", relata, explicando que a destruição começou há cerca de quatro anos, depois de a entidade responsável pelos vestígios, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, ter perdido os funcionários que tinha ao seu serviço para tomar conta deles. Aos que quiserem saber mais sobre os usos e costumes dos habitantes pré-históricos deste sítio resta visitar uma exposição que o Museu de Arqueologia do Distrito de Setúbal está a preparar para abrir até ao final do ano e que integra espólio encontrado no Pessegueiro: cerâmica, punhais, machados e outros instrumentos de pedra polida, bem como colares em metal. Dos esqueletos de quem ali habitou é que não há rasto: a acidez dos terrenos arenosos decompuseram-nos há muito. Numa área pouco superior a um hectare, Carlos Tavares da Silva deu de caras há duas décadas com um verdadeiro manancial: um cemitério do período neolítico (5000-4000 a.C.) com seis sepulturas - no seu entender um dos mais importantes achados do Pessegueiro, entretanto destruído-, seis necrópoles da Idade do Bronze (1700-1300 a.C.) e ainda uma oitava necrópole da Idade do Ferro (séc. IV a.C.), construída por cima de uma povoação da Idade do Bronze. "Foi a primeira vez que se encontrou um povoado desta época no Sudoeste da Península Ibérica", realça. Fundos de cabana, alguns empedrados, restos de lareiras e milhares de fragmentos de recipientes de cerâmica comprovaram a descoberta. Os habitantes do local eram gente que pescava e tecia, como mostram os anzóis de cobre e os pesos de tear também encontrados. Carlos Tavares da Silva recorda-se de o terreno, que fazia parte da Herdade do Pessegueiro, ter sido comprado pelo Estado algures no final da década de 70, de modo a salvaguardar os vestígios. Com o passar dos anos as acácias foram abrindo caminho por entre as vedações do sítio arqueológico, que entretanto se degradaram. "Além disso, as actividades agro-pecuárias da herdade ocuparam mais de um terço do local", assegura Tavares da Silva, acrescentando que o gado passou a ir pastar para a zona dos vestígios. As necrópoles foram lavradas? "Devem ter usado charruas mecanizadas", opina. Além do cemitério neolítico, desapareceu uma das seis necrópoles da Idade do Bronze. Afirmando-se surpreendido com o relato do arqueólogo, que garante nunca o ter alertado para o problema, um responsável do Instituto da Conservação da Natureza, João Alves, explica que os recursos deste organismo são limitados e que e as obras de reabilitação forte filipino que ali existe consumiram muitos deles. Quando os funcionários que zelavam pelos vestígios se reformaram, não foi possível substituí-los. Mesmo assim, o instituto diz-se disponível para equacionar uma intervenção de emergência.

http://jornal.publico.clix.pt/magoo/noticias.asp?a=2008&m=10&d=21&uid=&id=280670&sid=55668

9 comentários:

Anónimo disse...

O Parque Natural desconhecia a situação? Incrível! Então esses senhores estão lá a fazer o quê? Não ganham o seu ordenado para tomar conta do parque e ver o que acontece por lá? É assim que Portugal está. Já agora as câmaras da região não têm uma palavra a dizer nestes assuntos? Onde é que anda a AMLA? Andam entretidos com outras coisas que não vêem muito do que se passa no seu território é o que é. Este litoral alentejano é uma desgraça a gerir o seu património, olhando para todos estes casos que este blog não tem medo de relatar e ao que parece a comunicação social da região ou não sabe ou não liga a estes casos porque não vemos nada disso na imprensa da região. Tudo calado e mudo.

Anónimo disse...

De facto num casos destes ninguém pode sacudir a água do capote desde o parque natural, câmaras municipais, associações de defesa do património e população em geral. Já para não falar dos organismos do Estado que tutelam (ou têm a obrigação de tutelar) o património. Este caso merece uma campanha pública em larga escala porque efectivamente é preciso por um fim à delapidação do património do litoral alentejano, e há mais casos para além deste.

João Santos disse...

Se calhar a comunicação social tem tanta coragem como os anónimos que valentemente aqui escrevem no blog.

Anónimo disse...

se calhar é isso. estamos todos comprados que só temos coragem de comentar fazendo isso como anónimos. já tinha percebido tal coisa.

Anónimo disse...

Conforme o tempo passa mais vou ficando desiludido com estas nossas cãmaras, nomedamente os tipos que nós elegemos.

uma santiaguense disse...

Não conheço outra região que maltrate tanto o seu património, como a nossa. Vamos andando por esse país fora e encontramos montes de projectos e obras para para valorizar e aproveitar o património de cada concelho e aqui a nossa anda ao contrário e só nos dá tristezas atrás de tristezas. Malfadado destino o nosso que haviamos de ter com presidentes da câmara que não são dos nossos, não têm o sangue da região, e não amam estas coisas como nós amamos.

Anónimo disse...

Se não é de proposito, parece. Por estas e por outras é que cada vez há mais gente a achar que a região está a perder a sua identidade. Pois se não tratarmos de cuidar do nosso património e das nossas heranças culturais, vamos cuidar do quê?

Anónimo disse...

Sines vai inaugurar em breve a Casa Vasco da Gama e aos poucos vai cimentando a sua posição de capital cultural do litoral alentejano, deixando Santiago do Cacém a longa distância. Mas não apenas pelo trabalho da câmara de Sines como pelo trabalho do CCEN, e das demais associações do concelho de Sines.

Anónimo disse...

completamente de acordo, mas atenção que Alcácer do Sal está também lá em cima, no top, a par de Sines. Pena que Santiago que tem mais coisas por explorar que Sines e Alcácer esteja em estado vegetativo do ponto de vista cultural, aproveitamento do património, etc.