8.18.2008

Invasão de área protegida na costa alentejana sem controlo

Do "Público" de 16.08.2008, retiramos a seguinte notícia, que mostra bem o desgoverno que se vive e a falta de cuidado e atenção para um dos ex-libris do Litoral Alentejano.
"Estacionam para férias onde mais ninguém consegue. Os autarcas não sabem o que fazer e as autoridades queixam-se da falta de meios para evitar violações à lei.
Estrada que liga São Torpes a Porto Covo.
Manhã da passada segunda-feira. Um ruidoso buzinão fazia-se ouvir contra uma autocaravana que seguia à frente de uma fila de viaturas com cerca de 50 metros. Logo atrás, um condutor esbracejava, carregava na buzina e dava murros no volante. À frente dos seus olhos, cobrindo toda a faixa de rodagem e metade da contrária, circulava, entre o devagar e o devagarinho, a casa motorizada com matrícula holandesa.A odisseia terminou quando um dos buzinadores meteu conversa em inglês com o turista, que, afinal, estava perdido. Este género de incidente é o que tem dado mais alento aos que contestam o elevado número de autocaravanas que atrapalham o trânsito.
Mas este é o mal menor. A invasão dos melhores miradouros naturais, de dunas e falésias e o lixo que é deixado um pouco por todo o lado deixam marcas bastante mais negativas. O fenómeno é nacional, mas onde se faz sentir com maior acutilância é nos grandes espaços abertos da costa alentejana, entre Sines e a ponta de Sagres. Um fenómeno que não pára de crescer e que ninguém controla, apesar da lei existente.
É ao fim-de-semana e nos meses de Verão que este género de turismo ganha contornos de invasão. As autocaravanas posicionavam-se às centenas por tudo o que é falésia, parque de estacionamento no interior e exterior das zonas urbanas, nas dunas e nos locais à beira-mar. O espectáculo torna-se bastante agressivo do ponto de vista paisagístico e os protestos de um número crescente de autarquias fazem-se ouvir. Contudo, as autocaravanas passam em todas as direcções, indiferentes aos danos que, muitas vezes, causam nos locais onde se instalam.
Este mal-estar é reconhecido por alguns autocaravanistas. Pedro Góis partiu de Guimarães há duas semanas para percorrer o que pudesse da costa portuguesa a partir de Tróia. Pelo que já viu, diz haver "degradação ambiental e paisagística em espaços naturais" e lamenta que haja comportamentos de algumas pessoas que revelam falta de cuidado com a "higiene e a limpeza dos locais onde acampam".
Num documento aprovado pela Câmara Municipal de Aljezur, está expresso o desconforto e o mal-estar pelo "aumento drástico do campismo e caravanismo selvagem, que diariamente destroem o litoral" alentejano. José Arsénio, presidente da Junta de Freguesia de Porto Covo, classifica mesmo de "preocupante" o comportamento dos autocaravanistas que "não agrada a ninguém". O autocaravanismo "está associado à produção de muito lixo", refere o autarca, revelando que é frequente "despejarem" as águas residuais que produzem no sistema de águas pluviais da rede pública.
A junta de freguesia nada pode fazer nas falésias quando são terrenos particulares e do domínio público marítimo, a não ser recolher o lixo que lá é deixado. Mas nesta altura do ano, quando a população de Porto Covo aumenta seis vezes mais em número, o sistema municipal de recolha de resíduos domésticos dificilmente pode ocorrer a este tipo de situações. "Torna-se complicado suportar as necessidades dessas pessoas", acentua o autarca. "O que nos resta é vedar o acesso a estes locais, mas eles [autocaravanistas] arrancam as estacas de madeira" que são colocadas, denuncia.
O seu colega autarca da Zambujeira do Mar António Viana enfrenta o mesmo problema. "É difícil controlar o estacionamento das autocaravanas" diz, frisando que a GNR " não dá conta do problema".
Por outro lado, a lei permite que o estacionamento das autocaravanas se faça por um dia e uma noite. Acontece que boa parte vem para ficar mais tempo. "Colocam calços nas rodas e desde que as viaturas estejam fechadas e sem o proprietário à vista só com um mandado judicial é que podemos tirá-las do local", refere o autarca. A solução passa por impedir o acesso a determinados locais, mas mesmo esta solução está a revelar-se "complicada", admite António Viana.
Numa das falésias mais deslumbrantes de Porto Covo, cinco pessoas, três gerações da família de Nélio Marques (esposa, filho de um ano e pais), vindos de um meio rural do distrito de Coimbra, acomodavam-se sem problemas de maior no interior de uma autocaravana que custara 50.000 euros."É uma forma de fazer campismo melhor que nos parques de campismo", declara o patriarca da família, explicando que escolheram aquela falésia "por ter visto outros" no mesmo local. Procuram sempre juntar-se aos agrupamentos de autocaravanas. "É uma estratégia" que tem em vista a segurança da família, argumenta Nélio Marques. Esta forma de acampar oferece grande autonomia - a caravana tem água, instalações sanitárias, camas para todos e no exterior podem sem ser instaladas mesas, cadeiras e uma cozinha.
Contudo, Nélio Marques não é alheio "à atitude anticaravanismo" que está em crescendo por todo o país.
A sul de Porto Covo todos os concelhos, sem excepção, aprovaram regulamentos municipais que proíbem o estacionamento de autocaravanas, mas de pouco valeu.
Autarcas confirmam degradação ambiental em espaços naturais, mas dizem nada poder fazer

5 comentários:

Anónimo disse...

É falta de civismo é falta de vigilância e é falta de organização das entidades que devem olhar a estas coisas. Tb já tenho visto certas coisas que é de bradar aos céus. Devia haver mais cuidado e responsabilizar-se mais toda a gente incluindo as entidades se não isto qualquer dia está tudo estragado e se não fizerem nada vai ser cada vez pior acreditem. E a região não merece isso.

Anónimo disse...

este é o espelho do país. falta de civismo, falta de educação, falta de dinheiro (para muitos), falta de respeito, falta de fiscalização!
É a cultura portuguesa no seu auge:
Cultura de camionista, cultura de emigrante iletrado, cultura de musica pimba estilo malhoa ou nel monteiro, cultura de 4ª classe de adultos ou de engenheiros À pressa.
Um país atrazado com dirigentes atrazados mas, chicos-espertos, arre!

Anónimo disse...

Parece-me que existe algum racismo em relação às auto-caravanas... Se existe lixo ou estragos não serão as auto-caravanas as culpadas mas sim as pessoas, com ou sem auto-caravana.

Anónimo disse...

Tenho estado em Porto Covo, e vejo aos fins de semana as excurssões e o rasto que deixam. Vejo pessoas de certa etnia, a fazerem o que fazem e sem rolo de papel higiénico, as caixas e sacos de plástico etc...Vale tudo. Como ninguém se importa com nada neste País, nem arranjam soluções, são os autocaravanistas que têm culpa de tudo. Enfim é Portugal no seu pior

Nuno disse...

Sou "orgulhosamente alentejano". No monte da minha juventude, há 60 e tal anos, não havia casas de banho. Mas o lixo era cuidadosamente enterrado. Quando mais tarde chegou a praga dos plásticos e outras "mostras" de civilização e "status", foi lá que aprendi a respeitar o direito dos outros a uma terra limpa, e a
à responsabilidade dos mais afortunados darem o exemplo.
Penso que é tudo uma questão de cultura. Vi sensivelmente o mesmo no Minho ou no Algarve, que afortunadamente pude conhecer.
Mas, com o correr do tempo, fui vendo degradarem-se esses hábitos, fruto de um consumismo cada vez mais feroz, mas também, e felizmente, de um acesso rápido ao consumo de estratos sociais que dele tinham sido privados.Mas o Povo não é estúpido, e rapidamente se tem apercebido que ao degradar o ambiente, está a comprometer a próxima visita. E não são elitismos de autarcas que se calhar como utentes fazem o mesmo, nem saudosismos proibicionistas de elites mal preparadas que vão resolver o assunto.Creio que cultura é o que resolve, e com o custo de umas barreiras físicas podem imprimir e distribuir aos autocaravanistas folhetos com instruções de comportamento (estão na Net, postos lá por autocaravanistas !),assim como podem instruir funcionários e autoridades para sancionarem comportamentos menos correctos. Sem prepotências nem pesporrências.
Sou campista desde os 15 anos, caravanista desde os 30, autocaravanista há 10 anos, e que me recorde só fui interpelado 1 vez por comportamento menos correcto, reconheçi que tiveram razão e alterei o comportamento, até hoje.
Mas já fui incomodado várias vezes por ignorantes,autoridades ainda mais ignorantes, etç. Mas a cultura portuguesa não é essa, mas sim a outra. Continuo orgulhosamente alentejano e, se tivesse que escolher outra coisa, escolhia ser Português.